Lista dos melhores livros de todos os tempos (www.thegreatestbooks.org)
133. O homem sem qualidades (Der Mann ohne Eigenschaften), Robert Musil (1880-1942)
Considerado como um dos grandes romances do século XX, esta monumental obra (cerca de 1.700 páginas, dependendo da edição) levou quase vinte anos para ser escrita. Mesmo assim, trata-se de um livro inacabado, pois uma hemorragia cerebral provocou a morte do autor quando ele se dedicava intensamente à produção do terceiro volume. Existem milhares de páginas manuscritas, disponibilizadas pela viúva de Musil, cuja sequência é um pouco embaralhada, o que, praticamente, inviabiliza a reconstrução da parte final desta obra-prima. A primeira publicação, que ocorreu em 1930, foi seguida de outras edições lançadas até 1943.
O romance, ambientado nos últimos anos do Império Austro-Húngaro (1867-1918), tem como personagem principal um matemático de 32 anos de nome Ulrich. Ele é uma pessoa indiferente à vida, superficial e que precisa do mundo exterior para a formação do seu caráter. Portanto, é considerado como um “homem sem características”, que é a melhor tradução para a palavra alemã Eigenschaft. Deve-se destacar que o título da obra não traz uma conotação negativa ao personagem, apenas indica que ele não possui “propriedades”. Esse extenso livro, que não exibe um enredo concreto e bem delineado, é muito mais um conjunto de digressões filosóficas sobre a decadência da sociedade naquele período histórico da Europa. Ademais, se constitui em uma acurada análise dos processos políticos que culminaram com a eclosão da Segunda Guerra Mundial. Uma parte da obra, por exemplo, é dedicada aos preparativos para a celebração dos 70 anos de reinado do imperador austríaco Francisco José, os quais coincidem com os 30 anos de governo do imperador alemão Guilherme II. Portanto dois países, àquela época inimigos, preparavam festas similares em um ambiente belicoso. Em suma, trata-se de livro escrito por um dos maiores prosadores europeus, altamente denso, o que induz uma apreciação textual mais paciente e cadenciada. De qualquer maneira, vale bastante a pena sua leitura, que é um verdadeiro alimento para o espírito.
Robert Musil, cuja biografia é pouco conhecida, nasceu na Áustria e formou-se em Engenharia Mecânica. Escreveu apenas quatro romances, que não lhe trouxeram nem fama nem fortuna. O reconhecimento de “O homem sem qualidades” só veio após a morte do autor, ocorrida na Suiça. No entanto, no restrito círculo literário de Viena, aquele escritor arredio já era apontado por alguns colegas como um gênio, o que veio a se confirmar na posteridade.
A tradução brasileira foi feita pela conhecida escritora e tradutora Lya Luft (1938-2021), juntamente com Carlos Abbenseth. A obra foi lançada pela Editora Nova Fronteira em 1989.
Línguas da Papua-Nova Guiné (2)
Língua Tok Pisin
É um dos três idiomas oficiais do país e aquele falado pela maior parte da população (50 a 70% em um contingente total de 7,3 milhões de habitantes). Os outros dois idiomas oficiais são o inglês e o Hiri Motu, que veremos mais à frente. Se vocês, entusiasmados com a coleção de idiomas apresentados neste Blog, perguntarem a qual família pertence o Tok Pisin, a resposta é muito clara: a nenhuma. Mas, por quê? Simplesmente porque ele é uma língua crioula, formada por uma mistura de palavras de vários idiomas, notadamente do inglês. No Post 233 esclarecemos o processo de formação das línguas crioulas,mas, por ser tão relevante, cabe aqui repeti-lo. Essas línguas surgem em comunidades muito diversificadas culturalmente, onde não é possível a adaptação conjunta das várias línguas naturais. Tudo começa com o conceito de pidgin (originário da pronúncia chinesa de business), que é uma “língua de contato”. Quando o pidgin é transformado em uma verdadeira língua, com estrutura gramatical e literatura, temos o processo de “crioulização”. A propósito, a palavra “crioulo” tem sua etimologia no espanhol criollo (da mesma origem latina de “criatura”), que designava os negros nascidos nas colônias.
Portanto, temos aqui uma das grandes novidades do nosso Blog: existe uma língua crioula que conseguiu atingir o status de língua oficial em um país com mais de sete milhões de habitantes. Não é pouca coisa, possivelmente um caso único no planeta. Entendam que o Tok Pisin não é apenas uma língua franca (ou língua de comunicação), mas o primeiro idioma de uma vasta população de nativos. A origem do curioso nome de Tok Pisin é muito fácil de ser esclarecida: Tok vem do inglês “talk” (falar, conversar) e Pisin é uma corruptela da palavra pidgin, apresentada algumas linhas acima. Embora o inglês seja a língua falada largamente pela maior parte da população, o Tok Pisin é bastante usado nos meios de comunicação e nas reuniões governamentais, além de ser obrigatoriamente ensinado nas escolas durante os três primeiros anos de alfabetização. Desta forma, constata-se que a maioria absoluta dos habitantes de Papua-Nova Guiné é, no mínimo, bilingue, havendo ainda uma vasta população de trilíngues.
O alfabeto possui cinco vogais, 16 consoantes e quatro dígrafos (ai, ou, oi, ng), que são considerados como letras. Lembremos que o dígrafo ng é bastante frequente nas línguas do Pacífico. Os substantivos não variam em número e não há artigos. Os adjetivos podem também ser usados como advérbios. Na sua estrutura, o Tok Pisin é uma língua crioula que recebeu fortes influências dos idiomas polinésios ao seu redor. Assim, por exemplo, é muito comum o uso da reduplicação das palavras, não para formação do plural – como é o caso na maioria dos idiomas do Pacífico – mas para ampliação do vocabulário com palavras correlatas. Vejam o exemplo: singsing (reduplicação de sing, “cantar”, como no inglês) tem o significado muito lógico de “festa”. Mas há armadilhas: enquanto sip é “navio”, também vindo do inglês, sipsip é a palavra para “carneiro” (do inglês sheep).
Além da maciça presença de corruptelas de palavras em inglês, o Tok Pisin recebeu empréstimos dos idiomas dos colonizadores (portugueses, espanhóis, holandeses, alemães). Do português, podemos mostrar dois exemplos: save (de saber, conhecer, entender) e o gracioso pikinini (pequenino, para crianças). Bastante curiosa é a forma para se perguntar a idade de uma pessoa: Yu got hamas krismas? (“Você tem quantos Natais?”). A resposta é Mi got … krismas.
Vencedores do Prêmio Cervantes de Literatura (19)
2011: Nicanor Parra (1914-2018): poeta chileno, irmão da conhecida compositora Violeta Parra (1917-67), a criadora da música popular chilena. Nicanor era também matemático e seguiu uma carreira científica – algo inusitado no meio literário – inclusive cursando pós-graduação em Física nos EUA. Seu primeiro livro de poemas foi publicado em 1937. Ele recebeu ainda o Prêmio Rainha Sofia de Poesia Iberoamericana em 2001.
2012: José Manuel Caballero Bonald (1926-2001): filho de pai cubano e de mãe com ascendência nobre francesa, José Manuel foi um escritor espanhol, laureado com o Prêmio Nacional das Letras Espanholas em 2005. Além da vocação literária, ele também foi um destacado flamencólogo (especialista na pesquisa e divulgação do gênero musical flamenco). Estudou Filosofia e Letras em Sevilla e, complementarmente, astronomia na Universidade de Cádiz. Teve experiência de docente universitário em outros países latino-americanos, notadamente na Colômbia. Seu primeiro poema foi publicado em 1952. Em 2012 lançou o poema autobiográfico Entreguerras, que conta com quase três mil versos.
Frase para sobremesa: Poucos pensam, mas todos julgam (George Berkeley, 1685-1753).
Até a próxima!