Lista dos melhores livros de todos os tempos (www.thegreatestbooks.org)
128. O Romance de Genji (Genji Monogatari), Murasaki Shikibu (978-1031)
Muitos críticos literários apontam que esta obra se constitui no primeiro romance literário do mundo. Trata-se de uma afirmativa polêmica e que carece de avaliações aprofundadas, ainda mais se considerando a subjetividade associada à interpretação exata do conceito de “romance”. O livro, escrito no começo do século XI (possivelmente de 1000 a 1012) no Japão, não possui um enredo definido. Assim como na vida real, os eventos simplesmente acontecem enquanto os personagens (mais de 400) evoluem com o passar do tempo. Uma das riquezas da obra é a acurada caracterização psicológica dos participantes da história. A figura central é o filho de um imperador japonês, cuja vida amorosa é descrita de forma detalhada, incluindo um relacionamento carnal com sua madrasta. Cabe ressaltar que os personagens não são designados pelos seus nomes, mas apenas pelos atributos ou pelas funções que exercem. Na época, a menção de nomes próprios, tanto na língua falada quanto na escrita, era vista como uma falta de cortesia.
Acredita-se que a monumental obra (que chega a ter 1.100 páginas em algumas traduções) possa ter sido escrita a várias mãos, já que existem diversas discrepâncias na evolução do enredo, incluindo-se alguns erros de continuidade. Além disso o livro chega ao final de forma abrupta, o que leva à suposição de que a redação do mesmo não foi completamente concluída, A conhecida autora belga Marguerite Yourcenar (1903-87) afirmou que “não se escreveu nada de melhor em nenhuma literatura”.
A presumida autora Murasaki Shikibu, cujos anos de nascimento e morte são aproximados, era uma dama de companhia na corte imperial japonesa. O nome real da escritora não é conhecido, apenas seu nome artístico. Na época as mulheres japonesas desconheciam o vocabulário da linguagem culta, que era de uso exclusivo dos eruditos do sexo masculino. Às mulheres era vedado o acesso à literatura séria. Tal condição fez com fosse criada uma escrita própria das mulheres, a qual estava livre da influência das palavras de origem chinesa, de cunho mais sofisticado. Murasaki, contrariando essas tendências, conseguiu adquirir fluência na língua culta. Ela casou-se ainda jovem com um nobre bem mais velho, que veio a falecer dois anos após as bodas. Presume-se que Murasaki tenha começado a escrever logo no início de sua viuvez.
Esse grandioso romance teve três adaptações feitas por cineastas japoneses em 1951, 66 e 87. A mais conhecida é a de 1966, dirigida por Kon Ichinawa (1915-2008), já contemplado com o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 1960 pelo filme “Kagi”. Existem várias traduções do texto original – que é inacessível à maioria das pessoas – para o japonês moderno.
As traduções diretas da obra só ocorrem nas principais línguas ocidentais. Em português está disponível apenas a versão indireta, feita por Carlos Correia Monteiro de Oliveira para a editora Relógio D’Água, sediada em Portugal.
A língua chamorro (2)
O vocabulário da língua chamorro tem cerca de metade das palavras com origem espanhola. Desta forma, muitas pessoas, erroneamente, consideram o chamorro como um crioulo de base espanhola. Em alguns Posts antigos já esclarecemos o que são “línguas crioulas”, mas vale a pena relembrarmos. Elas surgem em comunidades muito diversificadas culturalmente, onde não é possível a adaptação conjunta das várias línguas naturais. Tudo começa com o conceito de pidgin (originário da pronúncia chinesa de business), que é uma “língua de contato”. Quando o pidgin é transformado em uma verdadeira língua, com estrutura gramatical e literatura, temos o processo de “crioulização”. A propósito, a palavra “crioulo” tem sua etimologia no espanhol criollo (da mesma origem latina de “criatura”), que designava os negros nascidos nas colônias.
O idioma chamorro tem sua forma escrita desde 1668, por iniciativa de padres espanhóis. Usa-se o alfabeto latino com inclusão das letras Å (“A” com uma bolinha em cima e pronúncia semelhante ao “a” do inglês car, ao passo que o “A” normal equivale ao da palavra cat), Ch, Gu, Ng e Ñ. O chamorro falado em Guam difere um pouco daquele usado nas Ilhas Marianas do Norte. Ambos são mutuamente compreensíveis, embora com algumas distinções na grafia e na pronúncia. Uma curiosidade, única no mundo das línguas, é o fato de, no chamorro de Guam, os dígrafos iniciais serem escritos com letras maiúsculas. Assim, o nome do idioma escreve-se “CHamoru” em Guam e “Chamoru” nas Marianas do Norte. A ordem das palavras na frase, que é do tipo V-S-O nas Marianas, tem uma maior flexibilidade em Guam, podendo ser também S-V-O.
Em linhas gerais, a variante de Guam tem normas ortográficas bem estabelecidas, ao passo que o dialeto das Marianas é mais livre na sua estrutura. Tanto em Guam quanto nas Marianas, o chamorro foi praticamente banido da vida pública, ocorrendo inclusive a destruição de dicionários. A retomada só ocorreu a partir de 2013, com uma nova legislação incentivando o ensino da língua nas escolas. Grande avanço ocorreu com a introdução do chamorro na Internet, na TV e em aplicativos de celular.
Como o chamorro é uma língua aglutinante, é frequente a inserção de afixos, os quais proporcionam a formação de longas palavras. Uma peculiaridade do idioma é o chamado wh-agreement, ou seja, quando a frase tem pronomes interrogativos os quais, em português, seriam aqueles iniciados com a letra “Q”, ocorre o acréscimo da partícula “um”. Seria como se a frase “João leu o livro” se transformasse em “Quem leu-um o livro?”
Dias da semana: lunes, måttes, métkoles, huebes, betnes, såbatu, domenggo.
Números de 1 a 10: unu, dos, tres, kuatru, sinku, seis, sieti, ochu, nuebi, dies.
Algumas expressões (na variante de Guam, que é, linguisticamente, a mais respeitada; a variante das Marianas é, no entanto, muito semelhante): Olá (Hafa Adai), Até logo (Adiós), Bom dia (Buenas dias), Por favor (Put fabot), Desculpe (Dispensa yo), Eu não entendo (Ti hu komprende), Eu te amo (Hu guiaya hau), Obrigado (Si Yu’us ma’asi – pronúncia de Yu’us: zus; tradução: Deus tenha piedade).
Vencedores do Prêmio Cervantes de Literatura (14)
2001: Álvaro Mutis (1923-2013): escritor e poeta colombiano, autor de 12 romances, nove livros de poesia e diversos ensaios. Antes de se dedicar à literatura trabalhou como jornalista, locutor de rádio e dublador de filmes. Sua obra mais conhecida é o romance La nieve del almirante (1986)(A neve do almirante, Companhia das Letras, 1990), que relata as aventuras em um cargueiro que desce o rio, onde o navio serve como metáfora para os amores transitórios e a deterioração do homem. Mudou-se para o México em 1956, lá residindo pelo resto da vida. Foi contemplado com os prêmios Príncipe de Astúrias (1997) e o International Neustadt, por vezes denominado como o Nobel norte-americano.
2002: José Jiménez Lozano (1930-2020): jornalista e escritor espanhol, galardoado com o Prêmio Nacional das Letras Espanholas em 1992. Sua produção literária é direcionada principalmente a temas religiosos, o que o fez ser pouco conhecido do grande público na Espanha. Graduou-se em Direito pela Universidade de Valladolid e em Filosofia e Letras pela tradicional Universidade de Salamanca. Seu primeiro romance foi publicado apenas em 1971, todavia o ritmo de lançamento de novos livros se intensificou bastante após sua aposentadoria.
Frase para sobremesa: A razão, por mais que grite, não pode negar que a imaginação estabelece no homem uma segunda natureza (Blaise Pascal, 1623-62).
Bom descanso!